Por: Professor Mesquita

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A importância da formação acadêmica em Educação Física para a atuação do técnico de futebol: breve reflexão

Para que um técnico consiga liderar toda a comissão que lhe cerca é essencial que ele tenha conhecimentos para debater as melhores condutas em cada área

Assim como existem fortes conhecimentos populares em todas as áreas do conhecimento humano, com o futebol não poderia ser diferente, e talvez o maior e mais prejudicial senso comum que norteia o mundo desta modalidade esportiva, e também de outras, é o fato de que para ser um bom técnico é necessário ter sido um dia atleta daquela modalidade.

Em primeiro lugar, seria interessante citarmos o atual cenário jurídico a respeito da atuação do técnico de futebol. A Lei 9.696, de 1º de setembro de 1998, regulamentada pelo então Presidente da República Fernando Henrique Cardoso, em seu terceiro artigo preconiza que:

“Compete ao Profissional de Educação Física coordenar, planejar, programar, supervisionar, dinamizar, dirigir, organizar, avaliar e executar trabalhos, programas, planos e projetos, bem como prestar serviços de auditoria, consultoria e assessoria, realizar treinamentos especializados, participar de equipes multidisciplinares e interdisciplinares e elaborar informes técnicos, científicos e pedagógicos, todos nas áreas de atividades físicas e do desporto.” (BRASIL, 1998).

Pôde-se verificar no artigo supra-citado que a legislação reserva aos profissionais de Educação Física o direito de exclusividade no planejamento, direção e organização do desporto em geral, dentre eles o futebol.

Além disso, podemos buscar na lei 6.354, de 2 de setembro de 1976, outorgada pelo então Presidente da República Ernesto Geisel, que, em seu vigésimo sétimo artigo preconiza:

“Todo ex-atleta profissional de futebol que tenha exercido a profissão durante 3 (três) anos consecutivos ou 5 (cinco) anos alternados, será considerado, para efeito de trabalho, monitor de futebol”. (BRASIL, 1976).

Pôde-se perceber que o profissional que atua no futebol, mas que não possui formação técnica em Educação Física não pode, em termos legais, ser considerado Técnico de futebol, e sim monitor de futebol.

Com os termos legais já vistos, poderemos migrar para aspectos mais práticos.

Em entrevista ao jornal Lance!, do dia 20 de agosto de 2006, na página 15, ao ser perguntado sobre a preparação física, o então técnico do Sport Club Corinthians Paulista, Emerson Leão, proferiu a seguinte resposta: “Qualquer coisa que será feita aqui, passará pelo meu crivo, até porque eu me formei em educação física em 1973”. Drubsky (2003), ao retratar em seu livro o modelo organizacional de uma equipe do futebol brasileiro, coloca, liderando a comissão técnica, o técnico de futebol. O mesmo autor ainda afirma ser este profissional o responsável pela maior parte das decisões ligadas ao futebol. Não com isso, dizendo que o mesmo deve ministrar a preparação física, o departamento de fisiologia, o departamento de nutrição e assim por diante, porém o mesmo deveria ter conhecimento suficiente para compreender os diferentes processos relacionados ao desporto, desde o aspecto tático até o departamento de fisiologia, por exemplo.

Para exemplificar a idéia defendida, podemos lembrar do Princípio da Especificidade do Treinamento Desportivo, que preconiza que as adaptações ocorridas com o treinamento serão altamente específicas ao tipo de treinamento que será empregado, à sua freqüência, volume, intensidade, meio e método, por exemplo: o atleta de maratona deve realizar treinos relativamente intensos, porém, com alto volume, enfatizando assim, o sistema aeróbio, fundamental para o sucesso desportivo nesta dada modalidade. (MONTEIRO, 2006; WILLMORE & COSTILL, 2001). Barros & Valquer (2004) informam que o futebol é uma modalidade esportiva caracterizada por esforços intensos e breves, acompanhados de intervalos de recuperação. Desta forma, pode-se dizer que o método de treinamento mais adequado ao futebol, respeitando o Princípio da Especificidade é o Método Intervalado, caracterizado por períodos destinados aos estímulos e períodos destinados à recuperação (GARRETT & KIRKENDALL, 2003; McARDLE, KATCH & KATCH, 2003; MONTEIRO, 2006; WEINECK, 2003; PLATONOV, 2008). Este método de treinamento foi primeiramente escrito por Reindell e Roskamm e popularizado pelo campeão olímpico Emil Zatopek, em 1950 (VERONIQUE, 2001). Se um atleta de futebol que atuava aproximadamente na década de 1940-1950, onde havia predominância do treinamento contínuo, que se caracteriza por não apresentar intervalos de recuperação, com volume de treinamento muito alto, o mesmo poderá acreditar, como técnico, que o método de treinamento físico que deveria ser empregado aos seus atletas deveria ser este, podendo até, contrariar as sugestões do responsável pela preparação física. A partir deste breve fato, pode-se verificar a essencialidade da formação teórica do técnico de futebol, ou melhor dizendo, a importância da formação universitária em Educação Física.

Se para os técnicos de futebol a formação universitária em Educação Física se torna importante, pode-se duplicar esta importância para aqueles técnicos que estão envolvidos com as categorias de base, ou seja, estão envolvidos com o treinamento de crianças e adolescentes, que possuem suas especificidades no âmbito psicológico, fisiológico, motor e cognitivo. Frisselli & Mantovani (1999) afirmam que os técnicos de futebol necessitam observar e relevar o fato de que antes de serem jogadores de futebol, as crianças e adolescentes são seres humanos que estão passando por complexos processos de crescimento e maturação. Korsakas & De Rose Junior (2002) afirmam que o treinamento empregado com crianças e adolescentes não possui especificidade para estas faixas etárias, sendo uma cópia daqueles programas de treinamento aplicados com os adultos, a não ser pela redução da bola, do tempo de jogo e assim por diante, o que é extremamente errado, uma vez que, como já dito anteriormente, crianças e adolescentes possuem um “universo” de conhecimentos a parte.

Bibliografia:

BARROS, T. L. & VALQUER, W. Preparação física no futebol. In: BARROS, T. L. & GUERRA, I. Ciência do futebol. Barueri, São Paulo: Manole, 2004, p.21-38.

BRASIL. Lei nº 6.354, de 2 de setembro de 1976. Dispõe sobre as relações de trabalho do atleta profissional de futebol e dá outras providências. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Brasília, 02/09/1976.

BRASIL. Lei nº 9.696, de 1 de setembro de 1998. Dispõe sobre a regulamentação da Profissão de Educação Física e cria os respectivos Conselho Federal e Conselhos Regionais de Educação Física. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Brasília, 02/09/1998.

DRUBSKY, R. O universo tático do futebol: escola brasileira. Belo Horizonte: Editora Health, 2003, 336 p.

GARRETT JUNIOR, W. E.; KIRKENDALL, D. T e colaboradores. A ciência do exercício e dos esportes. Porto Alegre: Artmed, 2003. 911 p.

JORNAL LANCE. Falamos com... Émerson Leão. Jornal Lance!, São Paulo, 20/08/2006, p. 14-15.

KORSAKAS, P. & De ROSE JÚNIOR, D. Os encontros e desencontros entre esporte e educação: uma discussão filosófico-pedagógica. Revista Mackenzie de Educação Física e Esporte. v. 1, n. 1, pg 83-93, 2002.

McARDLE, W. D.; KATCH, F. I.; KATCH, V. L. Fisiologia do exercício: energia, nutrição e desempenho humano. 5ª ed. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan, 2003, 1113 p.

MONTEIRO, A. G. Treinamento personalizado: Uma Abordagem Didático-Metodológica. 6. ed. São Paulo: Phorte Editora, 2006. 199 p.

PLATONOV, V. N. Tratado geral de treinamento desportivo. São Paulo: Phorte Editora, 2008, 887 p.

VERONIQUE, B. L. Interval Training for performance: a scientific and empirical practice: special recommendations for middle and long distance running part I: aerobic interval training. Sports Medicine. v. 31, n. 1, p. 13-31, 2001.

WEINECK, J. Treinamento Ideal. Barueri, São Paulo: Manole, 2003,740 p.

WILMORE, J. H.; COSTILL, D. L. Fisiologia do esporte e do exercício. 2ª ed. São Paulo, Manole, 2001. 709 p.


Texto de Luis Felipe T. Polito