Por: Marcelo Augusto Antonelli/Cidadedofutebol

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Como lutar contra as suas próprias expectativas?
Quando um treinador tem altas expectativas sobre um atleta, se relacionará com ele de forma que procure fazer sua predição se tornar verdadeira
 

Parte 1: Compreendendo como ocorre o poderoso e perigoso processo das expectativas

Um dos grandes desafios nos relacionamentos humanos, incluindo a relação treinador-jogador, é “o poder das expectativas” (em inglês, “The self-fulfilling prophecy”). Apesar da importância de se conhecer como funciona esse mecanismo, como diminuir os efeitos negativos e potencializar os positivos, a “cultura futebolística” brasileira ainda não abriu grandes espaços para essa área.

O mesmo não se pode dizer no campo da educação escolar ao redor do mundo. Centenas de pesquisas já foram realizadas desde o início do século, e os conceitos são ultilizados não somente na educação escolar, como também em segmentos do mercado de trabalho.

“The self-fulfilling prophecy” pode ser definido como o processo pelo qual as expectativas de uma pessoa podem levar uma outra pessoa a agir de maneira congruente com as expectativas da primeira pessoa (Brém, Fein and Kassin, 2005).

Exemplificando no caso dos esportes coletivos: quando um treinador tem altas expectativas sobre um atleta, se relacionará com ele de forma que procure fazer sua predição se tornar verdadeira. Da mesma forma, quando as expectativas são baixas, suas atitudes em relação ao atleta procurarão realizar a predição.

Um treinador eficaz tem conhecimentos nessa área e usará todas as estratégias estudadas no campo da psicologia social para que suas influências não só não prejudiquem os atletas, mas também deve entender que boas expectativas podem influenciar de maneira positiva no desenvolvimento e desempenho dos atletas.

A tarefa não é simples. Antropologicamente falando, é natural para todo ser humano fazer julgamentos baseados nas experiências passadas e nas informações recebidas. No entanto, existem estratégias para quebrar o ciclo das expectativas negativas e potencializar aquelas positivas.

O processo do qual estamos falando é também conhecido no meio científico como “Pygmalion effect”. Isso porque, segundo a mitologia, Pygmalion, o rei de Cyprus, fez, nominou, vestiu e amou uma estátua, Galatea, como se ela estivesse viva. Aphrodite, a deusa, com dó de Pygmalion, deu vida à estátua. Pygmalion e Galatea, então, casaram-se e deram à luz Meatharme (Campbell & Simpson 1992).

Deixando de lado a mitologia e olhando para a história desse conhecimento, podemos relacionar o conceito até mesmo com as loucuras do mercado de ações nos últimos meses: muitos afirmam que as melhores predições das bolsas não vêm das ciências econômicas, mas das humanas.

Segundo o sociólogo Robert Merton, no século passado, alguém começou a espalhar o boato de que um banco encontrava-se prestes a ir à falência. Apesar de a informação ser falsa, a maioria dos clientes retiraram o dinheiro e o banco faliu. Baseando-se neste fato, ele criou uma teoria de que se algo é amplamente acreditado, tem uma maior chance de acontecer. E chamou esse processo de “Self-fulfilling prophecy”. Desde então, psicólogos sociais, utilizando-se de pesquisas científicas, vêm estudando esse processo.

O próximo passo foi quando Jacobson e Rosenthal publicaram o “Pygmalion in the Clasroom”, avaliando se as expectativas dos professores poderiam influenciar o desempenho dos alunos ou se os alunos que influenciariam as expectativas dos professores. Segundo Rosenthal (2002), isso acontece porque o professor altera seu comportamento de forma consistente com a impressão feita do aluno, e este, como consequência, ajusta o próprio comportamento de acordo com as expectativas que lhe são passadas.

No mundo comercial, pesquisas foram realizadas em empresas como AT&T, e os resultados mostraram que promoções e aumento de salário estavam diretamente relacionados com as expectativas da empresa.

No esporte, Adams, Eiche e Javaune (1997) fizeram uma pesquisa com 73 “freshmen” (atletas no primeiro ano da Universidade), e o resultado foi que as expectativas positivas levaram atletas ao sucesso tanto nos campos como na sala de aula.

Até mesmo no exército foram feitas pesquisas. Em um centro de treinamento, instrutores receberam a informação de que treinariam um grupo de “top” recrutas (na verdade eles tinham sido selecionados aleatoriamente). O resultado foi que o grupo atingiu resultados mais altos que os outros grupos (Campbell & Simpson, 1992).

Atualmente, centros de treinamento no mundo comercial utilizam esses conceitos para otimizar os resultados. Basicamente, a estratégia é dizer ao “trainee” de forma consistente que ele carrega a expectativa de ter um bom rendimento, até o ponto onde o “trainee” acreditará na expectativa e agirá de acordo com ela. Para isso, os supervisores recebem treinamentos sobre linguagem corporal, contato com o olhar, expressões faciais, tom de voz e postura corporal. Eles também são treinados para prestar atenção, dar “feed back” (retorno) e motivar a todos da mesma forma.

E o que isso tem a ver com o futebol? Tudo. Esse é um processo poderoso e perigoso, que ocorre da mesma forma no dia-a-dia dos treinamentos. A primeira impressão pode ser feita mesmo antes de se conhecer o atleta. Ela será mais forte depois do primeiro contato visual, e no final do primeiro treinamento uma forte expectativa, positiva ou negativa, já terá se instalado.

O treinador com conhecimento nessa área deve procurar usar as técnicas necessárias para evitar o ciclo vicioso da expectativa negativa. O processo ocorre basicamente em quatro passos. No primeiro, o treinador desenvolverá uma expectativa, baseado em informações físicas, sociais e técnicas. No segundo, essas expectativas influenciarão o tratamento do atleta (frequência, duração, qualidade das interações). No terceiro, o aprendizado e desempenho do atleta serão influenciados pelo tratamento recebido. No quarto e último passo, o comportamento do atleta será influenciado pela expectativa do treinador (Burton & Bernie).

No próximo artigo, desenvolveremos as estratégias para lidar com esse processo.

Bibliografia

Adams-Gaston, J., Eiche K. & Sedlacek, W. (1997) An Exploration of Leadership Characteristics in College Athletes. Maryland Univ, Research 143. Acessado dia 23 de Novembro, do site: http://williamsedlacek.info/publications/articles/exploration697.html

Brém S., Fein S. & Kassin S. (2005) Social Psychology. Boston, MA: Houghton Mifflin

Burton D. & Bernie H. Self-Confidence: The Key to Sport Success. University of Idaho. Acessado dia 25 de Novembro, 2008 do site: http://64.233.169.132/search?q=cache:zfLLQuQRokkJ:www.educ.uidaho.edu/sportpsych/305%2520Campus/Self_Confidence.ppt+self+fulfilling+prophecy+sports&hl=en&ct=clnk&cd=8&gl=us

Campbell C. & Simpson C. (1992). Self-fulfilling prophecy: Implications for the Training/Learning Process. Department of Technological and Adult Education. The University of Tennessee. Acessado dia 22 de Novembro, do site: http://www.eric.ed.gov/ERICDocs/data/ericdocs2sql/content_storage_01/0000019b/80/13/3f/43.pdf

Rosenthal, R. (2002). Covert communication in classrooms, clinics, courtrooms, and cubicles. American Psychologist, 57, 839-849