Por: Professor Mesquita

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MARCELO LIMA
Bacharelado em Esporte pela EEFEUSP
Especialista em Fisiologia do Exercício pela UNIFESP
Preparador Físico da categoria “Juniores” do São Paulo Futebol Clube.

O futebol se caracteriza por ser um jogo de ações de alta intensidade e de curta duração, intercaladas com períodos de recuperação ativa e passiva, portanto de esforços intermitentes, que possuem a característica de constante mudança de ritmo e velocidade.

Com isso apresenta diferentes impactos fisiológicos no atleta, que devem ser respeitados na prescrição do treinamento; assim como as capacidades físicas do mesmo que são caracterizadas de modo diferenciado conforme a idade biológica.

As crianças e adolescentes mostram em princípio as mesmas adaptações que os adultos nos valores de parâmetros fisiológicos, mas neles ocorrem adaptações funcionais e estruturais dos órgãos e dos sistemas orgânicos que mantêm proporcionalmente a performance ou a limitam, de modo que seu treinamento está sujeito a princípios do treinamento de adultos, embora levando em consideração as capacidades psicofísicas e fisiológicas de suportar cargas nas diferentes faixas etárias.

Na criança futebolista os parâmetros fisiológicos da devem ser avaliados e analisados para a prescrição do treinamento adequado, assim seu desenvolvimento será harmônico e potencializado durante o crescimento porém estes dados sobre as características fisiológicas de crianças futebolistas são escassos.

Estabelecer este perfil fisiológico é de suma importância para a seleção de talentos, mesmo tendo a habilidade como fator relevante para se chegar ao alto nível.

Variáveis como a capacidade de consumo máximo de oxigênio (VO2 Máx.), a freqüência cardíaca máxima (FC Máx.), a freqüência cardíaca e a velocidade atingida no limiar ventilatório, são alguns dos parâmetros mais utilizados para se determinar um perfil fisiológico.

Consumo Máximo de Oxigênio (VO2 Máx)

O consumo máximo de oxigênio é um parâmetro avaliado para predizer a capacidade aeróbia do atleta e é discutido freqüentemente, pois vários estudos demonstram que essa capacidade deve ser somente boa, mas não necessariamente excepcional se comparado a outras modalidades esportivas.

Enquanto jogadores profissionais de seleções nacionais como Republica Checa e Arábia por volta de 60 ml.kg-1min-1 e crianças futebolistas com idade média de 8 anos alcançam valores médios de similares, em modalidades que exigem capacidade aeróbia excepcional como esqui e maratona, os valores encontrados de consumo máximo de oxigênio são em média de 75 ml.kg-1min-1., o que sustenta a hipótese de que o futebol exige uma capacidade aeróbia boa, mas não excepcional, necessária para a recuperação dos esforços intensos - as repetições de "sprints" - e que um bom nível é suficiente para essa recuperação ser eficiente.

Freqüência Cardíaca Máxima (FC Max)

A freqüência cardíaca máxima (FC Max.) encontrada em adultos futebolistas é menor do que a encontrada em crianças. Isso se explica pelo fato do coração ter um crescimento harmonioso até a fase adulta.

Com o crescimento há o aumento do comprimento das fibras cardíacas, há hipertrofia condicionada ao crescimento e ao treinamento, há o crescimento do espaço interno do coração que aumenta o volume de pulsação, tudo isso tornando o trabalho cardíaco mais efetivo e econômico progressivamente com o aumento da idade.

Estes avanços no desenvolvimento são expressos na diferença de valores entre adultos profissionais e crianças futebolistas na freqüência cardíaca máxima, com médias por volta de 190 bpm nos primeiros e 206 nos segundos.

Limiar ventilatório

As mais freqüentes variáveis utilizadas para caracterização da adaptação ao treinamento são as referentes ao limiar ventilatório. São elas a freqüência cardíaca no limiar e a velocidade, atingida na esteira, no limiar anaeróbio durante a avaliação cardiorespiratória.

Pelos motivos indicados no item acima as freqüências cardíacas no limiar para jogadores profissionais também são menores do que as de crianças futebolistas. Enquanto alguns pesquisadores o apontam em adultos como, em média, 168 bpm outros verificaram valores de 173 bpm. Já em crianças futebolistas os valores médios encontrados foram de 187 bpm.

Na velocidade, o limiar em adultos é em média de 13.3 Km/h. Em crianças essa velocidade é menor, atingindo valores médios de 10.5 Km/h. Isto se explica pela inferior técnica de corrida da criança. Suas passadas são menores que as do adulto, tendo um gasto energético maior, chegando ao limiar em uma velocidade mais baixa que o adulto.

Considerações para o treinamento

A etapa de formação de crianças no futebol é a fase de construção da habilidade, sendo assim, é natural que se tenha uma grande preocupação em se desenvolver a habilidade ao máximo nesse período. A carga de treinamento específico para o futebol, em crianças abaixo de dez anos, deve ser de aproximadamente 20 % a 30 %, aumentando progressivamente com a idade. A partir dos quinze anos, essa carga chega em torno de 50% da carga total de treinamento.

Apesar da suma importância da habilidade para esportes coletivos como o futebol, o aspecto fisiológico não pode ser deixado á margem. Conhecer os parâmetros fisiológicos de crianças de alto nível é imprescindível e decisivo, principalmente no processo de identificação de talentos e no trabalho em longo prazo.

O perfil fisiológico da criança futebolista, com média de idade de oito anos, pode ser caracterizado por valores de VO2 máximo acima de 60 ml/kg/min, freqüência cardíaca máxima em média de 206 bpm, velocidade no limiar acima de 12 km/h, % do VO2 Max no limiar acima de 77 % e FC no limiar em média de 187 bpm (90 % da fcmax).

Dados como os apresentados acima podem ser importantes para auxiliar no momento de estabelecer comparações entre atletas, planejar o treinamento e traçar objetivos a médio e longo prazo.

Em relação ao treinamento, pelos dados apresentados, os valores de VO2 máximo relativos de crianças e adultos, não apresentam diferenças significativas e o fator genético é determinante.

Portanto o aspecto técnico e coordenativo deve ser prioritário em relação ao aspecto físico, resistência no caso, na formação do atleta, respeitando as fases sensíveis do crescimento.


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do site: www.treinamentoideal.com.br