Por: Professor Mesquita

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Na história do futebol brasileiro não existe posição em que os jogadores tiveram que mudar tanto de características e posicionamento como o volante. As mudanças foram tantas que elas também influenciaram os outros setores dos times.

Por muito tempo, o meio-campo de quase todas as equipes era formado por apenas dois jogadores: um volante e um meia. Os dois atuavam fundamentalmente na armação das jogadas e não exerciam a função específica de marcação. No máximo eles cercavam os que tinham a mesma função do time adversário. Nessa época, os atletas que atuavam como volantes eram extremamente técnicos, com boa visão de jogo e passavam meses sem errar um único passe.

A primeira grande mudança da posição foi o surgimento do cabeça-de-área. O primeiro que exerceu essa função foi Denílson, do Fluminense. O surgimento de um jogador que jogasse fixo na entrada da área foi uma tentativa de parar as tabelas feitas pela dupla Pelé/ Coutinho, do Santos.

Essa modicação fez com que acabasse a dupla de médio-volante e armador. Com cinco jogadores atuando na defesa --os dois laterais, os dois zagueiros e o volante raramente passavam a linha central do campo--, foi necessário que mais um do ataque recuasse para ajudar o antigo armador no meio-campo.

Com o surgimento do cabeça-de-área, os volantes se tornaram jogadores de marcação e de passes curtos. Eles roubavam a bola e a entregavam para o meia que estivesse mais perto.

Com tantos jogadores jogando na parte defensiva, e com o meio congestionado, os laterais tiveram que mudar suas funções. Eles começaram ir para o ataque, só que, para terem o espaço de apoiar, era necessário que os pontas se deslocassem para o meio e aos poucos os autênticos extremas foram desaparecendo.

Com o avanço dos laterais, os volantes ficaram com dupla missão: além de marcarem a entrada da área, eram obrigados a fazer a cobertura dos laterais. Com isso, se tornaram jogadores apenas de destruição de jogadas e, como tinham que correr cada vez mais, começaram a fazer muitas faltas.

Os pontas foram sumindo e os clubes, para terem jogadas pelas extremas, precisavam que os laterais apoiassem cada vez mais. Todo esse trabalho era muito para um único volante, então os técnicos optaram por escalar mais um.

Já os zagueiros de área, com tanta proteção à frente, se transformaram em apenas rebatedores. Alguns começaram a se aventurar ao ataque e os volantes passaram a ter que cobrir os avanços deles também. Devido à inflação dos cabeças-de-área é que, atualmente, temos uma geração ruim de zagueiros. Nossos defensores não sabem mais combater um atacante quando esse vem com a bola dominada. Nessa condição, ou eles são driblados facilmente ou cometem faltas.

Para cobrir a entrada da área, as laterais e os avanços dos zagueiros, os volantes só precisavam de preparação física e com isso a parte técnica foi deixada de lado. Era muito difícil um volante dar um passe de mais de um metro.

A seleção brasileira da Copa de 1982 e o Flamengo campeão intecontinental em 1981 tentaram acabar com os volantes marcadores. Os dois times tinham volantes extremamente técnicos (Falcão e Cerezo, no Brasil, e Andrade, no Flamengo), mas a derrota do time de Telê Santana no Mundial da Espanha acabou com essa utopia.

O próprio Telê reviu seus conceitos. No Mundial de 1986, já armou seu time com dois volantes de marcação, Elzo e Alemão, e mesmo no período que esteve no São Paulo não abria mão dos volantes marcadores para aproveitar os avanços dos laterais. Só para citar alguns: Suélio, Sidney, Dinho, além de zagueiros como Adílson e Ronaldão, que foram adaptados na função de volantes.

Com os volantes sendo apenas marcadores, os laterais se tornaram os autênticos armadores das equipes. O problema acontecia quandos os laterais eram bem marcados. Com o meio-campo fraco, os times não tinham criação nenhuma. Com esse tipo de marcação nos laterais, os nigerianos acabaram com o Brasil na Olimpíada de 1996 e os franceses nos venceram com facilidade na Copa de 1998.

Percebendo essa deficiência, Wanderley Luxemburgo, passou a armar seus times com volantes que tinham técnica apurada, como Mazinho (Palmeiras) e Rincón (Corinthians), e conseguiu vários títulos com jogadores como esses citados, que sabiam o que fazer com a bola.

Atualmente quase todas as equipes jogam com um volante fixo, que muitas vezes atua como um terceiro zagueiro, e outro que ajuda, mesmo que timidamente, na armação de jogadas.

Para o futuro próximo os volantes apenas marcadores e sem técnica devem acabar. Os times devem jogar com duas linhas de quatro jogadores. Uma de zagueiros e outra da meia (o Manchester United e o Boca Juniors atuam desya forma). Com isso, os jogadores do meio-campo deverão ter habilidade para criar as jogadas, enquanto a marcação pesada fica com os quatro jogadores da defesa.
HUMBERTO PERON
Colunista da Folha Online