Por: www.cidadedofutebol.com.br

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Junior Chávare, coordenador da base do Grêmio
Executivo diz que o biotipo não é variável de corte e que busca jogadores mais técnicos do que fortes

mpulsionadas pelo 'efeito' Barcelona, as categorias de base ganharam uma importância ainda maior no cenário do futebol mundial. Assim como o clube catalão fez com a La Masia, revelar um talento dentro do próprio centro de treinamento pode render títulos e receitas em longo prazo.

De olho nesse filão, o Grêmio criou neste ano o projeto Lapidar, um programa para as categorias de base do clube que é voltada ao desenvolvimento dos fundamentos dos jovens jogadores.

Nesta iniciativa, além dos exercícios físicos, táticos e coletivos, são realizados trabalhos específicos de fundamentos técnicos e de situações específicas de jogo.

Chutes, cabeceios, domínio de bola, passes, ou cruzamentos, são gravados em fotos e vídeos e depois analisados pela comissão técnica do projeto, que sabe exatamente quais são as dificuldades de cada atleta da base do clube.

"Os trabalhos são elaborados através dos períodos sensíveis de desenvolvimento humano, seguindo a orientações pedagógicas, utilizando uma didática de ensino que busca, através de informações e treinamentos, a evolução dos atletas gradativamente. Porque eu não posso exigir de um garoto de 12 anos uma treinabilidade de um jovem da categoria sub-20. Em categorias menores, muitas vezes, o treino é muito mais lúdico do que qualquer outra coisa. Então, não há uma receita de bolo. Temos de entender as variantes de cada indivíduo", afirmou Junior Chávare, coordenador das categorias de base do Grêmio, em entrevista exclusiva à Universidade do Futebol.

A principal ideia do Lapidar é fazer com que os jogadores cheguem mais prontos para enfrentar as dificuldades da categoria profissional. E os objetivos das atividades precisam ser alcançados em breve, pois a ambição do projeto é grande: ter 50% do elenco do time principal formado no clube gaúcho até 2014.

Para isso, porém, Chávare mostra que há outras preocupações no trabalho de formação de talentos que vão além dos resultados em torneios das categorias iniciantes.

"Buscamos a potencialidade técnica, a parte física para as posições específicas e o perfil psicológico. Mas, em geral, sempre priorizamos o bom jogador. O biotipo não é variável de corte para a gente. Eu quero jogador que jogue. E estamos provando que a maturação faz diferença até a página dois. Temos conseguido resultados em torneios da base com jogadores mais técnicos do que fortes. E isso até contribui para uma possível venda para o exterior. O mercado europeu, por exemplo, não vem buscar o atleta grande e forte, porque eles têm isso de monte lá. Eles vêm buscar o baixinho e habilidoso, como um Bernard. Eles vêm buscar o diferente. Além disso, estamos buscando cada vez mais jovens comprometidos com o sucesso. Tanto na sua vida pessoal quanto na profissional", completou.

Nesta entrevista concedida diretamente de Porto Alegre, o executivo do departamento de formação do Grêmio explicou como são realizadas as correções dos vícios de movimento dos jovens, qual a importância das informações táticas aos jogadores em formação, e como funciona o projeto Transição. Confira:

 

Universidade do Futebol - Como funciona o projeto Lapidar?

Junior Chávare - Todos os jogadores das categorias de base do clube participam de treinamentos técnicos extras, fora do horário das atividades de suas respectivas equipes, de uma a três vezes por semana, complementando o trabalho das comissões.

É claro que existem algumas coisas internas que não poderei revelar. Mas, o que eu posso afirmar é que há um turno extra nos treinos dos jovens atletas. O grande conceito deste projeto é desenvolver as especificidades de cada posição através de treinamentos. Os laterais vão participar de atividades que estimulem as ações que um jogador daquela posição precisa. Os volantes, idem. Os zagueiros também. Todos os treinos são aplicados sempre de forma individualizada. Depois, com o desenvolver deles, a gente implanta, na mesma atividade, situações em que se encaixam mais de uma posição.

Então, temos todo o nosso método planejado. A comissão técnica das categorias de base, via scout, faz uma planilha de performance e sabe exatamente quais as dificuldades de cada jogador. Além disso, a equipe do Lapidar acompanha todos os jogos do Grêmio e toda segunda-feira há uma reunião com a comissão do profissional para as trocas de informações e alinhamento do trabalho. Os profissionais da equipe de cima também acompanham os treinamentos técnicos. Então, há uma interação muito grande entre os departamentos da base e o profissional.

Junior Chávare ao lado do assessor de futebol do Departamento de Formação do Grêmio, David Stival. "Temos um cuidado muito grande em preparar os atletas como seres humanos", diz

Universidade do Futebol - Aonde os profissionais do Grêmio buscaram a fundamentação teórica para o desenvolvimento deste ambicioso projeto?

Junior Chávare - Os trabalhos são elaborados através dos períodos sensíveis de desenvolvimento humano, seguindo a orientações pedagógicas, utilizando uma didática de ensino que busca, através de informações e treinamentos, a evolução dos atletas gradativamente.

Porque eu não posso exigir de um garoto de 12 anos uma treinabilidade de um jovem da categoria sub-20. Temos de ser sensíveis neste sentido, perceber em qual faixa de desenvolvimento está o garoto. Em categorias menores, muitas vezes, o treino é muito mais lúdico do que qualquer outra coisa.

Então, não há uma receita de bolo. Temos de entender as variantes de cada indivíduo. Aplicar estímulos nas variáveis que possam ajudar o desenvolvimento dos jovens.

Nas categorias sub-12 até sub-15, são realizados treinamentos de 19 fundamentos técnicos. Entre os 16 e 17 anos, os jogadores praticam treinos específicos por posição. Dos 18 até os 20 anos, todas as atividades são voltadas para as deficiências de cada jogador

Universidade do Futebol - O projeto diz que nas categorias sub-12, 13 e 14, são realizadas correções de vícios de movimento e estímulo à parte técnica. Como são ou foram definidos os padrões ideais dos gestos técnicos para estas faixas etárias?

Junior Chávare - Os gestos técnicos envolvem uma série de situações, uma grande sincronia de movimentos. Seguindo o exemplo do passe, para uma execução perfeita desse fundamento, temos de considerar o posicionamento do braço oposto à perna de chute, da flexão da perna de apoio para ganho de equilíbrio, do direcionamento do pé de apoio para o alvo desejado, tudo para obter maior precisão, amplitude total da perna de chute, inicial e final, para ganho de força.

Portanto, utilizamos orientações e treinamentos adequados para estimular nossos atletas os gestos técnicos de maneira correta na execução de todos os fundamentos.

"Não colocamos os garotos de 10 a 11 anos para participar do projeto Lapidar. Encaminhamos estes meninos a escolinhas do clube, nas quais a gente investe muito em treinos lúdicos", explica

Universidade do Futebol - Qual a metodologia que o clube vai implantar para que os jogadores da base cheguem cada vez mais preparados ao grupo principal?

Junior Chávare - Nas categorias sub-12 até sub-15, são realizados treinamentos de 19 fundamentos técnicos. Entre os 16 e 17 anos, os jogadores praticam treinos específicos por posição, onde dão sequência nas atividades de fundamentos técnicos com trabalhos que simulam situações reais de jogo, dentro de suas posições.

Dos 18 até os 20 anos, todas as atividades são elaboradas de acordo com as principais deficiências apresentadas pelos jogadores. Dessa forma teremos, em médio prazo, jogadores mais completos e em maior número ascendendo na equipe profissional.


"Nosso objetivo, no entanto, é chegar em 2014 com 50% do elenco profissional formado nas categorias de base do clube", aponta Junior Chávare


Universidade do Futebol - Quais os principais objetivos das categorias de base do Grêmio: vender jogadores ou conseguir com que eles acessem a equipe profissional? Qual o tempo estimado para que o clube comece a colher os frutos deste importante projeto?

Junior Chávare - Sem dúvida alguma é abastecer a equipe principal. Depois de nove meses de trabalho com este projeto, estamos com 10 atletas com idade sub-20, sendo quatro deles sub-19 e dois deles sub-18 no elenco principal, que atualmente conta com 29 atletas.

Ou seja, já conseguimos atingir 33% do elenco do time de cima. Nosso objetivo, no entanto, é chegar em 2014 com 50% do elenco profissional formado nas categorias de base do clube. 

Universidade do Futebol - Qual é a real importância das informações táticas aos jogadores em formação? Na metodologia do Grêmio, como elas são trabalhadas?

Junior Chávare - A formação tática é muito importante e sempre trabalhada em conjunto com as outras esferas de maneira global nos treinamentos. Da idade sub-12 até a sub-15, o trabalho se baseia em conceitos de jogo e tática individual e, a partir dos 16 anos, implementando os princípios de jogo.

Mas, por exemplo, não colocamos os garotos de 10 a 11 anos para participar do projeto Lapidar. Encaminhamos estes meninos a escolinhas do clube, nas quais a gente investe muito em treinos lúdicos. Até para deixar eles com liberdade de se desenvolverem e escolherem o que querem no futuro, se serão atacantes, defensores, enfim.

Agora, da categoria sub-12 a sub-20, os times jogam no mesmo padrão de jogo: o 4-3-3, com suas variações. Nós não trabalhamos com três zagueiros na base, por exemplo. O clube optou por querer formar laterais e não alas. Nesta plataforma de jogo, eu também tenho a função do volante e do meia bem determinadas.

Porque é preciso falar que o clube tem um DNA também. O Grêmio historicamente sempre teve bons volantes, sempre teve bons atacantes. Então, eu tenho de respeitar isso. A comissão técnica do profissional recebe mensalmente um raio-x de todos os atletas da base. O Renato [Portaluppi] conhece todos os nossos atletas da base. Na atual gestão, há uma verticalização de departamentos. E a nossa função é preparar o jogador para as diversidades do profissional.


"Da categoria sub-12 a sub-20, os times jogam no mesmo padrão de jogo: o 4-3-3, com suas variações. Nós não trabalhamos com três zagueiros na base, por exemplo. O clube optou por querer formar laterais e não alas", afirma o coordenador do Grêmio


Universidade do Futebol - Sabemos que muitos clubes ainda não têm definidos de forma objetiva os critérios para a observação e seleção de talentos, muitas vezes recorrendo às famosas "peneiras" para realizar este processo. Como acredita ser possível melhorar este processo?

Junior Chávare - O Grêmio não acredita nesta fórmula. Hoje em dia, trabalhamos com uma equipe especializada em observar atletas, além dos tradicionais colaboradores, sendo que, após esta primeira etapa, o atleta passa de duas a quatro semanas em uma sequencia de avaliações que priorizam estritamente a parte técnica.

Os jogadores indicados são avaliados semanalmente e ficam, no mínimo, duas semanas e não mais do que quatro, pois temos uma preocupação com a questão social do garoto, que não pode ficar sem estudar, enfim. Atualmente, temos dois observadores que atuam em todo o Rio Grande do Sul, e mais um profissional que fica fixo no Estado de São Paulo.

E, o nosso primeiro passo quando os contratamos, foi fazer com que eles conhecessem profundamente o nosso elenco, pois assim eles terão mais embasamento para fazer a comparação com os jogadores que forem analisados lá fora do clube. Também elaboramos um relatório que eles têm de preencher e isso ajudar na parte pragmática da avaliação.

Além disso, treinamos os observadores técnicos do Grêmio com clínicas. De tempos em tempos, fazemos análises de jogos, entre outras atividades, de forma conjunta. Com isso, conseguimos alinhar o trabalho e a grande vantagem são os atletas que eles nos mandam, que sempre atendem o perfil do clube.

"A comissão técnica do profissional recebe mensalmente um raio-x de todos os atletas da base. O Renato [Portaluppi] conhece todos os nossos atletas da base. Na atual gestão, há uma verticalização de departamentos. E a nossa função é preparar o jogador para as diversidades do profissional", afirma Chávare

Universidade do Futebol - Em sua opinião, quais os principais fatores que devem ser levados em consideração no processo de detecção e seleção dos talentos nas categorias de base?

Junior Chávare - A potencialidade técnica, a parte física para as posições específicas e o perfil psicológico. Mas, em geral, sempre priorizamos o bom jogador. O Ramiro, do elenco profissional, tem 1,69 m e é um dos melhores volantes do país. Mas, para as funções de goleiro e zagueiro, é preciso ter um gabarito. Eu não consigo ter um defensor, hoje em dia, abaixo de 1,80 m. O Thiago Silva é exceção.

Mas, de resto, o biotipo não é variável de corte para a gente. Eu quero jogador que jogue. E estamos provando que a maturação faz diferença até a página dois. Temos conseguido resultados em torneios da base com jogadores mais técnicos do que fortes. E isso até contribui para uma possível venda para o exterior. O mercado europeu, por exemplo, não vem buscar o atleta grande e forte, porque eles têm isso de monte lá.

Eles vêm buscar o baixinho e habilidoso, como um Bernard. Eles vêm buscar o diferente. Fui observador do Juventus, da Itália, para a América Latina e eles pediam exatamente isso, o jogador bom. Além disso, estamos buscando cada vez mais jovens comprometidos com o sucesso. Tanto na sua vida pessoal quanto na profissional.

No Grêmio, também há o projeto chamado Transição. Nele, o atleta passa por períodos de treinamento junto ao elenco profissional até ser efetivado, permitindo que seu processo de adaptação esteja em um estágio mais avançado quando isso ocorrer

Universidade do Futebol - Qual a política do Grêmio para a contratação e qualificação dos profissionais que participam do processo de detecção, seleção e desenvolvimento dos talentos nas suas categorias de base?

Junior Chávare - O Grêmio passou a investir fortemente no quesito qualificação. Em janeiro de 2013 realizamos nossa primeira semana de estudos e qualificação para todos os profissionais que trabalham no departamento de formação. Foram mesas-redondas nas quais a gente avaliou tudo o que acontece de certo e de errado e fizemos o planejamento para o ano inteiro. Depois, no final do ano, faremos um novo encontro para fazer um realinhamento do que até então havia sido planejado.

Todos os envolvidos nesta ação do começo do ano passaram por cursos de reciclagem. E agora temos desenvolvido um plano de cargos e salários para todos os profissionais do clube. Queremos implantar o ISO também, pois somos um clube formador. E as contratações obedecem especificamente o caráter da capacidade profissional e do perfil traçado pelo clube.

O departamento do RH [Recursos Humanos] é quem realiza todo o processo administrativo de contratação como em qualquer outra cargo do mercado. Há exigências escolares e profissionais na hora da contratação.

"O biotipo não é variável de corte para a gente. Eu quero jogador que jogue. E estamos provando que a maturação faz diferença até a página dois. Temos conseguido resultados em torneios da base com jogadores mais técnicos do que fortes", revela Chávare

Universidade do Futebol - Sabemos que o desenvolvimento de um jogador se deve a muitas horas de treinos e jogos. Contudo, muitas vezes os jogadores considerados reservas chegam a passar meses sem disputar partidas oficiais. O Grêmio possui alguma estratégia para superar este gargalo?

Junior Chávare - Os jogadores que não estão na equipe principal participam de amistosos, e ao mesmo tempo, intensificam as atividades no projeto Lapidar. Por vezes, nossas equipes disputam competições com categorias um ano abaixo, assim, abrindo espaço para os jogadores considerados reservas disputarem algumas competições.

É muito comum ocorrer amistosos entre as categorias, com outros clubes, e estes encontros têm todo o caráter de um jogo formal, com arbitragem, uniformes, etc. O conceito é não ter um time, e sim um grupo. Porque se o profissional solicitar um atleta da base, vai se criar um buraco que precisará de um jogador para preencher esse espaço. Então, todos têm de estar aptos a jogar.

"Estamos buscando cada vez mais jovens comprometidos com o sucesso. Tanto na sua vida pessoal quanto na profissional", aponta o executivo da base gaúcha

Universidade do Futebol - A grande maioria dos jogadores da base não chegará ao futebol profissional por "N" motivos. Como prepará-los para que esta frustração não atrapalhe a formação do cidadão? Existe alguma preocupação neste sentido?

Junior Chávare - Temos um cuidado muito grande em preparar os atletas como seres humanos. Temos um setor psicossocial de alta performance e que dentre inúmeras atividades culturais, sociais e pessoais, trouxeram este ano para os garotos várias palestras de comportamento humano, tais como, gestão de carreira, gestão financeira, etiqueta, enfim. Então, temos essa preocupação também. 

Universidade do Futebol - Um dos maiores gargalos da formação de um jogador de futebol é o considerado "último passo", quando o menino vai para a equipe profissional. Como o Grêmio trabalha esta importante fase?

Junior Chávare - Estamos aplicando o projeto chamado Transição. Nele, o atleta passa períodos de treinamento junto ao elenco profissional até ser efetivado, passando a viver o ambiente da equipe principal, sabendo exatamente o que fazer e como fazer, permitindo que quando estiver de forma definitiva no elenco principal, seu processo de adaptação esteja em um estágio mais avançado.

Mas, é preciso deixar claro que ele não é do profissional, ele está no profissional. Se notarmos uma mudança de comportamento ou que o salto alto cresceu, fazemos um trabalho psicológico com o jogador e o retornamos ao elenco das categorias de base