Por: Professor Mesquita

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Os músculos esqueléticos são estruturas que, a partir da sua contração, possibilitam os movimentos e as posturas necessárias às ações da vida diária: atividades laborais, físicas e esportivas. Dessa forma, conforme o tipo de atividade, existe uma solicitação muscular em diferentes níveis que necessita de graus variados de condicionamento físico do músculo. 


Estruturas viscoelásticas que apresentam propriedades biomecânicas,os músculos possuem, entre outras, a capacidade de sofrer deformação na medida em que uma força produz aumento do seu comprimento. Seja de forma passiva, como num alongamento passivo, ou de forma ativa, como numa contração excêntrica. Assim, quando os músculos são deformados dentro da sua capacidade viscoelástica, diz-se que houve deformação elástica. 

Quando a deformação vai além da capacidade do músculo, diz-se que houve deformação plástica, o que pode produzir micro ou macro lesão do músculo. No esporte, principalmente os que exigem grande velocidade de movimento e/ou grande flexibilidade das articulações, os músculos ficam expostos a forças que podem produzir essa deformação plástica e levar às lesões chamadas de rupturas. 

Os comumente chamados estiramentos são na verdade lesões, rasgos musculares. Ressalte-se que não há fibras elásticas no tecido muscular esquelético, portanto, o músculo não possui capacidade para se alongar ou se esticar. O maior comprimento que um sarcomero (menor unidade central do músculo esquelético) pode alcançar é no momento do relaxamento.

Nos esportes de contato, pode haver trauma direto sobre o músculo levando às lesões chamadas de contusão. Outra lesão muscular, não tão freqüente no esporte, mas que pode ocorrer, é a chamada laceração. Independentemente do tipo de lesão, pode haver “esgarçamento”, ruptura parcial ou total do músculo o que faz com que haja perda da sua capacidade contrátil e da sua viscoelasticidade, situações que reduzem a capacidade funcional do atleta com lesão muscular. 

As lesões musculares estão entre os traumas mais comuns, com uma freqüência de 10 a 30% de todas as lesões no esporte. Podem ser classificadas conforme sua gravidade: grau 1, considerada leve e que não apresenta dano estrutural importante, nem redução importante na capacidade contrátil e viscoelástica do músculo, sendo de fácil recuperação; grau 2, considerada moderada, em que há dano estrutural do músculo e limitação da capacidade contrátil e viscoelástica; grau 3, considerada grave, com rompimento total do músculo e incapacidade funcional do atleta. Nas lesões de grau 3, pode haver a necessidade de cirurgia para suturar o músculo (miorrafia).

Os músculos que mais frequentemente sofrem “estiramento” muscular são os isquiotibiais (posteriores da coxa), o reto femural (região anterior da coxa) e a panturrilha (posteriores da perna). Em relação às contusões e lacerações, são mais comuns no bíceps femural (parte posterior da coxa). Todos os músculos, contudo, estão sujeitos a essas lesões, mas são mais comuns nos músculos da coxa, perna, braço e tronco. 

O tratamento, obviamente, dependerá da gravidade da lesão. A primeira etapa do tratamento é baseada no controle da resposta inflamatória. Para tal, o uso da crioterapia (gelo) com compressão da área, por 20 minutos, a cada 90 ou 120 minutos no primeiro dia, é muito eficaz. O repouso relativo por 1 a 3 dias em lesões de grau 1, ou por pelo menos 1 semana em lesões de grau 2 ou 3, também é importante. Nessa fase inflamatória o músculo não deve ser exposto a forças que produzam deformação importante porque essa condição pode comprometer a formação do tecido de granulação e da matriz cicatricial e até provocar nova lesão. Há algum tempo atrás, era comum a imobilização nas lesões musculares. As evidências atuais apontam a mobilização precoce e controlada após o primeiro dia nas lesões de grau 

1; após 5 a 7 dias nas lesões de grau 2; e 2 semanas nas lesões grau 3. Evidentemente, essa mobilização deve ser em baixa velocidade, sem carga e com a amplitude de movimento muito bem controlada, de tal forma que a tensão gerada no músculo não comprometa sua recuperação. 

A dor é um fator clínico importante a ser levado em consideração. É importante lembrar que as células musculares são consideradas mecanócitos, ou seja, são células que dependem de estímulos mecânicos e respondem com mecanismos intrínsecos para facilitar a sua regeneração e a sua remodelação tornando o músculo apto a exercer suas funções normais, principalmente no que o esporte exige. 

Assim, na fase inicial da lesão, durante a mobilização, o movimento ou a contração são realizados dentro da amplitude que não produz dor, mas gera algum estímulo mecânico. Essa mobilização pode ser realizada por meio de intervenções fisioterapêuticas, mas a própria manutenção de funções como a marcha (no caso de lesões em músculos do membro inferior) e de outras atividades da vida diária são importantes dentro da possibilidade do atleta. 

Na verdade, o importante no tratamento das lesões musculares é facilitar o processo de recuperação e limitar a perda da função, minimizando o grau de atrofia muscular e perda da capacidade viscoelástica do músculo - principalmente a capacidade de ser relaxado, passiva ou ativamente. Na medida em que o quadro inflamatório vai diminuindo, o músculo deve ser exposto ao aumento de tensão gradativa, por meio de exercícios de relaxamento e por meio de exercícios de contração do músculo. Os relaxamentos podem ser iniciados assim que o quadro de dor diminui, por volta do 3º dia nas lesões de grau 1, ou após a primeira semana nas lesões de grau 2. Nas lesões de grau 3 que não foram operadas, o tempo deve ser maior, chegando até 2 semanas. 

O objetivo do relaxamento é gerar tensão e proporcionar a reorganização do tecido cicatricial, o que facilita a remodelação do músculo e recupera suas propriedades viscoelásticas. Também podemos iniciar com exercícios com contração isométrica, também controlando o grau de tensão, e com exercícios com contração dinâmica, dentro da amplitude de movimento assintomática. 

É importante salientar que o fato do atleta não apresentar dor após uma lesão muscular, não significa necessariamente que o músculo esteja recuperado. A dor não é o único elemento clínico a ser levado 

em consideração. Se durante o processo de recuperação o músculo não foi exposto a cargas progressivas, que devem envolver aumento do comprimento do músculo em velocidades crescentes e aumento da intensidade e do volume dos exercícios, não há remodelação adequada. Nessa condição o atleta pode não sentir dor nas suas atividades de vida diária, mas o fato do músculo não estar com suas propriedades contráteis e viscoelásticas totalmente recuperadas pode fazer com que, numa solicitação mais “abrupta” do músculo, o mesmo não responda de forma adequada, podendo, inclusive, haver reincidência da lesão. 

Os exercícios de coordenação motora, equilíbrio, velocidade de movimento e agilidade também são importantes para o processo de recuperação plena do atleta com lesão muscular.

Uma condição importante no processo de recuperação é submeter gradativamente o atleta aos gestos motores inerentes ao seu esporte. É importante também que o atleta já possa, dentro do processo de recuperação, manter, dentro dos limites, o seu condicionamento físico. Assim, tudo o que for possível fazer, sem que haja prejuízo do processo de recuperação, deve ser feito. Por exemplo, se a lesão não permite correr, mas permite pedalar, ou se ainda não é possível chutar uma bola, mas é possível fazer exercícios de resistência muscular. 

Não é necessário esperar a recuperação plena para reiniciar condicionamento físico. Não é preciso ter pressa, mas não se deve perder tempo. 

Atualmente, a maior incidência de lesão muscular, sua gravidade e suas repetições estão relacionadas ao overuse (excesso de uso), jogos, treinos e ao desequilíbrio de força entre músculos agonistas e antagonistas. Noção essa fundamental na educação física dos atletas.  


Matéria publicada pelo site  BMP Medica