Por: Raphael Mesquita

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Começou! Todo ano é a mesma coisa. Final do terceiro bimestre, quase início do último, lá vêm as cartinhas da escola: "Doutor, por gentileza, avalie o Pedro Henrique. Ele esta muito desatento, hiperativo, agressivo, irritado, não se concentra nos estudos, não esta conseguindo acompanhar o grupo nas tarefas escolares, provavelmente ficará retido neste ano escolar se providências urgentes não forem tomadas..."

Isso tirou a vovó Nana do sério. Veio à consulta e nem trouxe o tradicional tupperware com um pedaço daquele bolo de cenoura que somente ela sabe fazer. Sem perda de tempo, foi direto ao assunto:

- Doutor, na minha época não tinha essa história de hiperatividade, as professoras tinham mais paciência, criança é assim mesmo, tem muita energia para gastar! Olha essa cartinha, onde já se viu? O Pedrinho é uma criança normal, muito levado, mas normal!

Enquanto conversávamos, o Pedrinho já tinha aberto minha gaveta de amostra grátis, subiu e pulou várias vezes na balança eletrônica e agora acaba de derrubar todos os enfeites que deixo na mesa de apoio. Má educação? Excesso de mimo? Ou hiperatividade?

Sabemos que 5% das crianças em idade escolar lutam com problemas de falta de atenção, impulsividade e hiperatividade. Destas, 50% vão continuar a ter dificuldades na idade adulta.

Confundida muitas vezes com má educação, o Transtorno do Déficit de Atenção por Hiperatividade (TDAH) é uma doença que causa danos ao aprendizado escolar, à relação social e ao convívio familiar. Entre as principais características, observamos crianças inquietas, tagarelas, trocam palavras ao falar ou escrever, agressividade, tendência à depressão e à ansiedade. 

A não detecção da doença pode causar sérios problemas à criança, como repetência, mudança constante de escola e, na adolescência, envolvimento com drogas. 

Apesar de todo esse risco, o TDAH continua sendo ignorado por grande parte dos profissionais da saúde e da educação. Há muita desinformação sobre esse problema. Diferenciar o normal do hiperativo ainda é um desafio, além polêmico.

É difícil para os pais aceitarem que seu filho tem uma doença que foge da simples questão comportamental. Eles acreditam piamente que agitação, bagunça e desobediência é coisa de criança, sinal de muita saúde e vivacidade.

Para nós pediatras a tarefa é mais árdua, o TDAH é uma realidade que não podemos ignorar, mas hoje em dia as crianças também sofrem com a falta de atenção, pouca conversa e quase nenhuma brincadeira: faltam pais presentes e atuantes.

A televisão, o computador e o vídeo game substituíram as historinhas e brincadeiras com papai e mamãe. Será que a indisciplina, desmotivação e agressividade não é conseqüência da falta de amor e atenção?

Outro fato, novo e relevante, veio a tona semana passada. Uma pesquisa feita pela Universidade de Southampton foi publicada na revista científica Lancet, concluindo que corantes e conservantes encontrados em balas, doces, salgadinhos e refrigerantes podem estar relacionados a hiperatividade e distúrbios de concentração nas crianças.

No estudo, três tipos diferentes de refrigerantes foram oferecidos a um grupo de 300 crianças de 3, 8 e 9 anos. Um continha uma forte mistura de corantes e conservantes, outra tinha uma quantidade média e a última nenhuma mistura, os níveis de hiperatividade foram medidos antes e depois das crianças beberem os líquidos aleatoriamente. O grupo que ingeriu o refrigerante com altos teores teve "efeitos adversos" significativos quando comparados ao grupo que bebeu menores ou nenhum aditivo.

Veja quanta coisa esta envolvida com hiperatividade: genética, ambiente, criação e agora alimentação. Fica o alerta a pais e educadores, cuidado e muita atenção!

Tadeu Fernando Fernandes é presidente da Sociedade de Pediatria de Campinas