Por: Professor Mesquita

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No Pas h indcios de ser crescente o nmero de crianas com idade entre 7 e 12 anos que optam pela prtica do futsal (MUTTI, 1994), modalidade oferecida pela maioria dos clubes, colgios, associaes e organizaes congneres (SANTANA, 1996). A iniciao pode acontecer at mesmo antes, aos 5 e 6 anos de idade. Esse fenmeno acontece no mundo todo, onde cada vez maior o volume de crianas nas mais tenras idades participando de programas de movimento orientado e esporte organizado (OLIVEIRA, 1993). A prtica regular e orientada do futsal oferecida comunidade atravs das escolinhas especializadas. Na escolinha, a criana ser levada a participar de treinos e jogos.

O ensino do futsal deve ser feito pelo professor de Educao Fsica, competente para propiciar o aprendizado, estabelecendo objetivos, contedos, metodologia e avaliao do ensino. O fato de a criana iniciar no futsal, no final da 1 (6,7 anos) ou durante a 2 infncia (entre 8 e 12 anos), no deve ser motivo de preocupao, desde que a proposta de ensino seja compatvel com suas caractersticas, possibilidades, interesses e necessidades. O professor que trabalha na iniciao no interage apenas com a criana, mas tambm com pais e dirigentes esportivos. Nesse cenrio, ter que conviver com valores (princpios) e idias (opinies) dessas pessoas. Nem sempre esses valores e idias tero congruncia com o conhecimento especfico que requer a sua atividade profissional, o que absolutamente compreensvel, pois so pessoas que ocupam no processo situaes distintas e, na maioria dos casos, de formao profissional tambm diferentes. Logo, podero surgir pontos divergentes e o professor, competente tecnicamente (domnio do conhecimento), dever argumentar e propor alternativa metodolgica compatvel faixa etria e voltada para a promoo da criana.

Nessa direo, o estudo prope-se a contribuir com subsdios para a ao pedaggica do professor. Consideramos necessria a elucidao de alguns conceitos que permita uma construo de conhecimento comprometida com a criana e que possa, efetivamente, desvincular o futsal na infncia da especializao esportiva precoce. Iniciaremos essa discusso identificando o sistema humano que interage com a criana futsalonista.

O sistema humano

Identificar o sistema humano, e ainda suas implicaes no contexto, nos daro subsdios para revelar aos professores a realidade concreta da criana que inicia no futsal. Espera-se que, da anlise desses subsdios, possam surgir reflexes acerca de seu compromisso profissional.

Sistema pode ser considerado como o conjunto de elementos entre os quais se possa encontrar alguma relao (Novo Dicionrio Aurlio, 1986). Quais seriam esses elementos na iniciao no futsal? Objetivamente, aquelas pessoas que interagem com a criana: professores e tcnicos, pais, dirigentes esportivos de clubes e de entidades. Logo, a criana que pratica o futsal na infncia interage permanentemente com um sistema humano, sofrendo influncias destes segmentos. Importante entendermos esse raciocnio para no perdermos de vista a complexidade da situao.

Professores, pais e dirigentes diferenciam-se quanto sua maneira de interagir com a criana (tabela 1). Tambm, conforme a realidade, convivem mais ou menos tempo com a mesma. Os professores, como foi dito, planejam e operacionalizam a proposta de ensino e convivem com a criana trs, no mximo quatro vezes por semana, durante algumas horas (uma, duas). Os pais orientam-na segundo seus valores e idias e, supe-se, convivem diariamente com a mesma. Os dirigentes esportivos contratam os professores, inscrevem as equipes nas competies, estabelecem os objetivos do clube e, quando frente de entidades (Ligas, Federaes..), promovem os eventos, regulamentos e objetivos. Ambos, em muitos casos, convivem pouco com a criana.


Tabela 01: interao do sistema humano com a criana


Na complexa inter-relao (sistema humano/criana), comeam a surgir pontos passveis de questionamento. Com efeito, nessa fase, professores e tcnicos tm estabelecido proposta de ensino baseada no conhecimento e compatvel com a faixa etria? Preocupam-se com a formao da criana? Os pais, tm respeitado as diretrizes dos professores? Tm respeitado a individualidade da criana e a infncia? Os dirigentes de clubes tm contratado profissionais com formao acadmica? Como avaliam a capacidade do professor? Tem havido preocupao dos dirigentes de entidades em inovar nos eventos? Enfim, tem havido congruncia entre a atividade exercida pela criana e as demais partes envolvidas? Existe um contexto de formao em longo prazo?

H indcios de que os objetivos adotados pelo sistema humano na iniciao no futsal no diferem dos adotados para o esporte na fase de especializao e rendimento. Sendo os objetivos nessas fases absolutamente distintos (tabela 2.), no seria preocupante a postura do sistema humano?


Tabela 2: objetivos do Futsal na iniciao e no rendimento


At que ponto preocupar-se com resultados em curto prazo, aperfeioamento da performance individual, aplicao de mtodos de treinamento especializados, seleo de atletas, diviso dos atletas em titulares e reservas, dar espetculos e cobranas, garantir criana um presente fecundo e um futuro promissor? Seria isso uma vantagem? Para BENTO (1989), essa estrutura , por excelncia, geradora de conflitos, com finalidades imediatistas, e tende a fazer com que a criana perca sua condio de desportista iniciante e se transforme num produto mensurvel de apresentao do rendimento do sistema.

H indcios tambm de que a iniciao de crianas no futsal, longe de ser uma prtica compatvel com os interesses da idade, tem se constitudo num cenrio de agresses, principalmente emocionais, no que se refere participao equivocada de grande parte dos professores, tcnicos, pais e dirigentes esportivos.

Quais seriam ento as implicaes e responsabilidade do sistema humano?

As implicaes do sistema humano

Pertinente destacar que pais e dirigentes esportivos so co-responsveis pela iniciao adequada da criana no futsal. Sendo o professor o responsvel. No h como se eximir dessa responsabilidade! Logo, o futuro da criana no futsal est diretamente relacionado com as aes metodolgicas e pedaggicas do professor. medida que tivermos crianas incorporando sua vida esse esporte, seja em lazer ou at mesmo profissionalmente, foi porque as aes do sistema humano, particularmente do professor, foram competentes. O contrrio - crianas abandonando o esporte precocemente -, tambm deve ser creditado incompetncia do sistema humano e, particularmente, do professor.

Mas, o que seria ser incompetente? Objetivamente adotar uma mentalidade imediatista, fomentando o desejo de produzir precocemente um craque, um campeo, um vitorioso. Essa postura colabora para que sejam inseridos, precocemente, treinamentos fsicos e tcnicos especficos, contrariando as necessidades da criana (NEGRO, 1980). E da, as crianas so levadas especializao esportiva, e conseqente busca de rendimento, valorizando prematuramente o resultado imediato. Tal procedimento poder acarretar criana agravantes fsicas e emocionais (PINI & CARAZZATTO, 1978; OLIVEIRA, 1983).

Introduzir a criana precocemente na especializao esportiva, apesar das crticas de mdicos, fisioterapeutas, psiclogos e professores ligados rea esportiva e educacional, ainda muito comum. No se justifica por mais tempo imperar no esporte infantil os mesmos objetivos do esporte de alto nvel, colocando a criana a servio do esporte e no o contrrio. Tambm no se justifica um sistema gerador de problemas e conflitos, na medida que esse deveria dar suporte uma prtica competente, que alargasse os horizontes fsicos, emocionais, intelectuais e afetivos dos seres envolvidos (BENTO, 1989). E, quando falamos de problemas e conflitos, queremos credit-los, muito particularmente, a comportamentos inadequados de tcnicos, pais, dirigentes e, at de rbitros (FRISSELLI, 1994).

A responsabilidade do sistema humano

A quem deve ser atribuda responsabilidade do futsal na infncia continuar a ser encarado de forma especfica, buscando a especializao esportiva precoce e a excessiva competitividade? Ao Sistema Humano. A criana no responsvel se o dirigente do seu clube quer sua categoria campe a qualquer custo, afim de que seu clube possa firmar-se como poderio esportivo. No responsvel por seu tcnico antecipar etapas, introduzir treinamento precoce e valorizar apenas a vitria. No responsvel pelo tcnico acreditar que sendo campeo ter reconhecimento e seu emprego garantido. No responsvel por seus pais quererem se realizar atravs dela, querendo v-la como destaque precocemente. De fato, as implicaes existem, so atuais, devem ser apuradas, e so complexas. Resolv-las tarefa difcil, pois envolve transformaes de comportamento de vrios segmentos. A estratgia de reduzir a iniciao de crianas no futsal busca de talentos e de rendimento demonstra-se tacanha e insustentvel.

Na busca de mais bem compreendermos o fenmeno criana e esporte, faz-se oportuno definir e diferenciar iniciao e especializao esportiva.

Iniciao e especializao esportiva

Iniciao esportiva o perodo em que a criana inicia a prtica regular e orientada de uma ou mais modalidades esportivas, sendo que o objetivo imediato dar continuidade ao seu desenvolvimento de forma integral, no implicando em competies regulares. J a especializao esportiva implica em competies regulares, desenvolvimento de capacidades fsicas, habilidades tcnicas e tticas, onde o objetivo a performance (INCARBONE, 1990). par desse conhecimento, nos parece interessante adotar, na seqncia, as divises propostas por autores, a fim de evidenciarmos alguns fatos. PINNI & CARAZZATTO (1978), preconizam que a iniciao esportiva da criana deve obedecer a duas fases distintas: geral e especializada. Na iniciao geral, que se daria dos 2 aos 12 anos de idade, o objetivo maior seria de formao, preparao do organismo a esforos posteriores, desenvolvimento das qualidades fsicas bsicas e contato com os fundamentos das diversas modalidades. No deve haver uma preocupao centralizada na competio esportiva. Na fase seguinte, a partir dos 12, 14 anos, o adolescente seria orientado para a especializao esportiva. BENTO (1989), revela uma abordagem um pouco diferenciada, porm semelhante, aquilo que ele determinou de Estruturao e construo progressiva do rendimento, ajustadas aos nveis de desenvolvimento da criana. Nesse sentido, deveria a mesma obedecer a trs etapas distintas:

Formao motora, geral, de base (7/8 9/10 anos)

Treino das bases (ou fundamentos) do rendimento (9/10 11/12 anos)

Treino estruturado do rendimento (12/13 anos)

Na 1 etapa, os contedos e o mtodo adotados orientariam a criana no sentido de desenvolvimento do seu talento motor geral. Na 2 etapa, haveria um direcionamento gradual para as particularidades do esporte e, na 3 etapa , como diz o nome, estruturar-se-ia o treinamento objetivando o rendimento esportivo. O autor deixa bem claro que (...) o processo de especializao numa modalidade desportiva comearia apenas na fase do treino das bases do rendimento desportivo (2a. etapa).

JORDIN e CHUDINOV apud FILIN e VOLKOV (1998) constataram que 55% dos campees e participantes de vinte Jogos Olmpicos (1896 a 1984) tinham mais de 25 anos, e que 59% dos campees tinham idade entre 25 e 35 anos, mostrando ser estreita a relao entre resultados expressivos e idades maduras. CINAGAWA (1993), deixa um registro muito interessante ao demonstrar que dos 7 aos 12 anos (perodo em que muitas crianas iniciam no futsal), a criana est bem longe de atingir seu pice esportivo, com apenas 40% aos 7 anos e 60% aos 12 anos, apresentando ainda apenas de 10 a 20% do seu desenvolvimento tcnico total, e de 40 a 60% de seu desenvolvimento mental. Somente dos 25 aos 27 anos poder atingir o seu pice esportivo, com 100% de seu desenvolvimento tcnico e mental. Dessa forma, por que exigir da criana performance tcnica e emocional elevadas? Estaria ela preparada para isso?

luz dessas afirmaes, oportunamente evidenciamos alguns fatores. Primeiro, existe uma diviso etria orientando a iniciao esportiva da criana, o que implica por parte do professor estabelecer objetivos, contedos, metodologia e avaliao diferenciados. Significa dizer, que no se deve dar a uma criana de 6, 7 anos, o mesmo tratamento e treinamento que se daria a um adolescente. Segundo, fica bem claro nas abordagens que h uma fase antecedendo outra - a GERAL antecede a ESPECIALIZADA. Subentende-se que qualquer violao a essa postura cientfica adotada pelos autores , no mnimo, passvel de questionamento. E, por ltimo, no se enfatiza, na iniciao, a busca da especializao esportiva e da excessiva competitividade como fatores determinantes para rendimento e avaliao. Fatores estes somente evidenciados posteriormente, na fase de especializao.

Entenda-se que no apenas do ponto de vista orgnico e motor que a criana deve ser respeitada, mas tambm intelectual, social e emocionalmente. Nessa direo, o professor deve levar em considerao quais so as caractersticas pertinentes a esses domnios. Assim, ao interagir com os alunos ter cincia de suas possibilidades e poder conduzir pedagogicamente a sua aula de maneira satisfatria. Entender a criana parece-me o precedente para interagir com a mesma. Contribuir para que a criana construa, progressivamente, princpios que elevem sua qualidade de vida, ou seja, a qualidade das suas relaes com o mundo que a cerca deve ser preocupao constante do professor na iniciao. Essa construo de conhecimento surge no contato com o outro, na interao entre professor x criana e criana x criana.

Reportando-nos nossa realidade: a estrutura (sistema) que orienta a iniciao de crianas no futsal tem, efetivamente, respeitado as fases de iniciao esportiva? Por outro lado, h algum problema no fato de a criana iniciar cedo no esporte? Introduzimos, na seqncia, consideraes sobre o treino precoce e a especializao esportiva.

Treino precoce e especializao esportiva

No se pode ignorar que o perodo dos 6 aos 12 anos importante para o desenvolvimento motor e emocional da criana. Nessa fase, a criana est numa fase tima para a aquisio e combinao de novas formas de movimento (MEINEL, 1984), aprendizagem de habilidades motoras (WEINECK, 1989), formao do acervo motor (LUCENA, 1994) e construo de idias e valores (SANTANA, 1996). Para ter sucesso na etapa seguinte, de rendimento esportivo (e tambm na construo de uma cultura de lazer e de sade) deve cumprir atividades motoras orientadas (MARQUES, 1991), vivenciadas em clima ldico e participativo (SANTANA, 1996). At mesmo para a seleo de atletas talentosos, uma especializao desportiva inadequada pode significar problemas para o tcnico na orientao desportiva (FILIN & VOLKOV, 1998). Logo, iniciar a criana no esporte durante o decorrer da 1 e 2 infncia tornar-se-ia mais adequado.

Isso implica dizer que o treino precoce? No. Entenda-se bem, treino precoce refere-se ao treino que acontece antes do tempo num determinado momento (MARQUES, 1991) e no ao fato de a criana iniciar no esporte. O que vai determinar uma prtica precoce so os contedos dados pelo professor criana que, naquele momento, no est preparada para receb-los. medida que ignorada no futsal uma iniciao orientada particularmente para a aprendizagem e desenvolvimento das habilidades especficas (fundamentos) em clima ldico e participativo, conhecimento corporal numa dimenso de totalidade corporal (formas bsicas de desenvolvimento motor), construo de princpios (SANTANA, 1996), despertando tambm o interesse para futuros rendimentos desportivos e preparando a criana para o futuro treino sistemtico de rendimento (BENTO, 1989), o professor tende a incorrer em programas e mtodos de preparao especializados (MARQUES, 1991), que especializao esportiva precoce. Nesse contexto, o treino torna-se precoce, pois acontece antes do tempo.

Esse pode ser o equvoco mais freqente do professor e que pode estar resultando em agravantes para a criana. Com efeito, sabe-se que a especializao esportiva precoce encontra respaldo significativo em professores, pais e dirigentes esportivos que, observando um grande potencial na criana, preocupam-se em demasia com a elevao do seu rendimento (MARQUES, 1991) e incentivam a obteno de ttulos e recordes (CHAVES, 1985), com o objetivo explcito de adquirir resultados em curto prazo na modalidade. No texto seguinte, procuraremos responder duas questes bsicas, imprescindveis para quem atua com o futsal na infncia: por que a criana procura o futsal? E, uma vez, praticando-o, por que especializada?

Possveis causas da iniciao e especializao esportiva precoce

Antes de entrarmos nas possveis conseqncias de inserir a criana precocemente na especializao esportiva e no esporte competitivo, torna-se necessrio elucidar possveis causas que levariam as crianas, num primeiro momento, a iniciar no futsal e, conseqentemente, a serem especializadas precocemente.

Por que a criana inicia a prtica do futsal? Objetivamente, por ser um esporte oferecido pela maioria dos clubes, escolas e associaes congneres. O futsal, ao contrrio de tantas outras modalidades coletivas, oferecido para a criana na 1 e 2 infncia. Guardadas as propores, estariam envolvidos outros fatores: evidncia do esporte na mdia; diminuio dos parques e campinhos de vrzea (devido a enorme expanso imobiliria); promoo de eventos de carter municipal, estadual, nacional e mundial; organizao do esporte (Confederao, Federaes, Ligas).

Agora, por que a criana especializada precocemente no futsal? Possivelmente, por dois motivos principais: a falta de conhecimento do professor e/ou as aes (presses, idias, valores) oriundas do sistema humano. Muitas vezes, as duas coisas no acontecem ao mesmo tempo. No podemos sacrificar todos os profissionais que trabalham com crianas. Pode acontecer de muitos serem competentes tecnicamente, mas ao sofrerem presses externas de pais e dirigentes, acabarem incorrendo em equvocos. Tambm deve ficar claro que no podemos dar o fato por encerrado. Ao contrrio, a busca de argumentos apoiados no conhecimento, poder esclarecer o sistema humano e, conseqentemente, provocar transformaes de comportamento significativas.

Por que preocupa-nos inserir a especializao esportiva na iniciao? Quais seriam as possveis conseqncias de se adotar metodologicamente tal postura?

Possveis conseqncias da especializao esportiva precoce

As possveis conseqncias de se especializar a criana precocemente est diretamente ligado ao fato de se adotar, por longo perodo de tempo (temporadas), uma metodologia incompatvel com as caractersticas, interesses e necessidades da criana. Logo, os possveis efeitos podem no se manifestar imediatamente, mas no decorrer de temporadas. A criana de 6 anos pode no apresentar estresse de competio nos primeiros meses de prtica do Futsal, mas poder apresent-lo futuramente.

O estresse de competio, a saturao esportiva e as leses so os efeitos mais comuns em crianas praticantes de futsal (SANTANA, 1996). O estresse de competio caracteriza-se por um sentimento de medo e insegurana, causado principalmente pelos conflitos oriundos de uma prtica excessivamente competitiva. A criana tem medo de errar (OLIVEIRA, 1993). A saturao esportiva manifesta-se quando a criana sente-se desanimada e enjoada em continuar a prtica do esporte. Sente-se assim porque o praticou em excesso e quer abandon-lo (PINNI & CARAZATTO, 1978). Outro efeito so as leses, uma vez que o futsal um esporte praticado num piso duro, que no permite muitas vezes deslizamento; se praticado em excesso e por longo perodo de tempo pode ocasionar arrancamento de tendes junto insero ssea e at mesmo fraturas, devido a criana no apresentar maturao ssea equivalente (NEGRO, 1980) e leses epifisirias, que atrapalham seu crescimento (ANDRISH apud GUEDES, 1995; PINI & CARAZZATTO, 1978; KATO & ISHIUO apud FIORESE,1989).

Com o objetivo de evitar as possveis conseqncias da especializao esportiva precoce, os professores tero que definir princpios metodolgicos que viabilizem a aplicao de condutas pedaggicas comprometidas com as possibilidades, interesses e necessidades da criana.

Caminhando para princpios metodolgicos

A atitude de definir princpios metodolgicos est estreitamente relacionada com a formao de cada professor. Qual a sua concepo de mundo? Como v a criana? O que quer com essa criana? Como acredita que essa criana aprende? Ao buscar respostas a essas perguntas, os professores estaro caminhando para a definio dos seus princpios metodolgicos. As aes pedaggicas do professor devem ser coerentes com os princpios eleitos pelo mesmo. Logo, os princpios devero estar presentes no processo ensino-aprendizagem da modalidade.

Freire (1998) define alguns princpios orientadores de condutas pedaggicas no ensino do futebol, que sustento serem pertinentes ao ensino do futsal. Elege quatro princpios: ensinar futebol a todos; ensinar futebol bem a todos; ensinar mais que futebol a todos; ensinar a gostar do esporte. Ao ensinar futebol a todos, o autor no despreza a importncia de fatores genticos na aprendizagem, mas refuta a seleo natural. Acredita que qualquer pessoa pode aprender a jogar futebol. Quem joga bem, jogar muito bem; quem sabe pouco ou nada, aprender o suficiente; todos devem receber a ateno do professor. No basta ensinar a todos, o professor deve ensinar bem a todos. Utilizar-se das melhores tcnicas (meios). Na argumentao do terceiro princpio, demonstra sua preocupao com o desenvolvimento intelectual, social e moral do aluno, com a sua condio humana. E, concluindo seu raciocnio, preconiza que para a criana aprender a gostar do esporte, exigir-se-o do professor condutas pedaggicas que promovam a aprendizagem em clima ldico, prazeroso e participativo.

Esses princpios parecem-me adequados para orientar a iniciao de crianas no futsal. Algumas sugestes de condutas pedaggicas devem ser de conhecimento de professores preocupados em provocar transformaes nas aulas de futsal na infncia. No devem ser encaradas como receitas, mas sim como contedo a ser estudado, aplicado e revisado continuamente.

1. conhecer as caractersticas da criana na faixa etria correspondente;

2. planejar as aulas com antecedncia;

3. construir um acervo pessoal de atividades motoras ldicas e diretivas para cada fundamento;

4. registrar no acervo pessoal atividades motoras criadas no transcorrer das aulas;

5. valorizar jogos da cultura popular infantil no ensino-aprendizagem do futsal;

6. criar e propor atividades motoras compatveis aos interesses e possibilidades da criana;

7. trabalhar formas bsicas de desenvolvimento motor;

8. diversificar atividades motoras, abandonando repeties e monotonia;

9. diversificar e adaptar materiais quando do ensino-aprendizagem do futsal;

10. priorizar atividades motoras ldicas no ensino-aprendizagem dos fundamentos;

11. no se preocupar em aprimorar, mas em corrigir os gestos tcnicos dos fundamentos;

12. no colocar as respostas motoras da criana sob julgamento;

13. incentivar a criana na realizao das atividades motoras;

14. criar clima de descontrao e prazeroso;

15. criar um clima participativo, valorizando a comunicao verbal da criana;

16. enfatizar o desenvolvimento social, o intelectual e o afetivo da criana;

17. oportunizar durante os jogos e competies a participao de todas as crianas;

18. encarar a competio como um meio de formao e no como um fim em si mesma;

Outras condutas poderiam ser enumeradas, mas a essncia est aqui. O que deve prevalecer nas aes pedaggicas do professor, quando no planejamento e operacionalizao de sua aula, a introduo de atividades motoras compatveis s caractersticas da criana, que levem-na a conhecer suas possibilidades corporais, a interagir com os outros e com os objetos, em clima ldico e participativo.

importante considerar que para construir condutas pedaggicas, temos que investigar e interagir com reas de conhecimento distintas. Temos que conviver com um conhecimento interdisciplinar.

A importncia do conhecimento interdisciplinar

Conhecimento interdisciplinar pode ser entendido como um processo de interao de campos de estudos diferentes, fornecendo informaes essenciais e que d origem a um novo campo de estudo (BOSCO, 1995). Logo, por que importante para o professor de futsal conviver com o conhecimento interdisciplinar? Acreditamos que, ao interagir com outras reas do saber humano, o professor obter subsdios que elevem a qualidade de suas aulas de futsal na infncia. Essa convivncia deve ser encarada como processo contnuo (e no apenas circunstancial!) de estudo, aplicao e reviso. No se trata apenas de ir at outra rea de conhecimento, colher determinada informao e aplicar no futsal, mas sim de, a partir dessa informao e de tantas outras, ir criando bases (um novo campo de estudo) para o surgimento de uma nova pedagogia.

O conhecimento interdisciplinar tambm propiciar ao professor introduzir estratgias que facilitem e elevem a qualidade das suas relaes com a criana. Vejamos, o futsal tem a sua histria, regras, tcnica e ttica. Esse um contedo fundamental para o professor. Mas, no transcorrer de uma aula na iniciao apenas esse conhecimento no basta. Para definir uma atividade motora, o professor precisar optar por mtodos de ensino, conhecer as caractersticas da criana, seus estgios de desenvolvimento, como se encontra motor e emocionalmente, como pensa e se relaciona com os outros. Logo, ter que interagir com outras reas de conhecimento. Por exemplo, uma das caractersticas da criana de 6, 7 anos no ter grande capacidade de concentrao. par desse conhecimento, o professor, pedagogicamente, no dever insistir em obter performance ttica, pois exige alto grau de concentrao. Outra caracterstica da criana nessa faixa etria que, intelectualmente, opera no concreto. Logo, enunciados verbais so difceis para a criana, pois exige operaes no plano das idias. Assim, quanto mais nova a criana menor deve ser a teoria. O conhecimento dessas caractersticas possibilita ao professor conduzir melhor sua aula, adequando as atividades s possibilidades e interesses da criana.

Concluso

As informaes apresentadas neste estudo evidenciam ser o professor de Educao Fsica que trabalha com o futsal na infncia, principalmente na faixa etria dos 5 aos 10 anos de idade, no final da 1 e no decorrer da 2 infncia, o principal agente responsvel por possveis mudanas e transformaes significativas. Sua atuao torna-se relevante na medida que, atravs do estudo, incorpora conhecimento, podendo dialogar e argumentar com os pais e dirigentes esportivos, iniciando assim um possvel processo de transformao da mentalidade imediatista vigente. Apoiado no conhecimento interdisciplinar, poder assumir o compromisso de evitar a especializao esportiva precoce, introduzir estratgias de ensino compatveis aos interesses, necessidades e possibilidades da criana, promovendo-a e elevando a qualidade de suas aulas de futsal. Num processo contnuo de estudo, de aplicao e reviso, criar uma pedagogia comprometida com o desenvolvimento da criana.

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Nota:
* Universidade Norte do Paran - UNOPAR (PR) - Educao Fsica - CCBS.

Editor: Allan Jos Costa - Revista Virtual EFArtigos